PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM TURISMO NO BRASIL
Postado 20.07.2011
A produção científica em Turismo no Brasil vem desenvolvendo-se quantitativamente, mas isto não implica, necessariamente, que também qualitativamente. Como o conhecimento em turismo é muito novo em comparação aos estudos em filosofia, sociologia, antropologia, economia, por exemplo, os estudos em turismo ainda estão em processo de adaptação e construção/desconstrução do conhecimento.
Basta apenas que se olhe atentamente ao que vem sendo produzido pelos autores das diversas áreas que usam o termo “turismo” para nomear sua produção e constatar as inúmeras obras que falam a respeito da atividade turística, seus efeitos, suas benesses e seus malefícios na sociedade, assim como novas perspectivas e projeções para a área. Entretanto, apesar do crescente interesse por publicações na área de turismo, isto não é suficiente para afirmar que a produção científica em turismo seja significativa e esteja no caminho certo, já que o fazer científico em turismo torna-se algo complexo por constituir-se em objeto de estudo científico quando apresenta-se como fenômeno e em objeto de reflexões empíricas da administração e marketing, além de outras dimensões quando o mesmo apresenta-se como atividade de negócios sob um discurso mercadológico.
Ao refletirmos sobre o sentido científico do turismo pensamos sobre este objeto conflituoso que o mesmo se mostra, apresentando-se ora como fenômeno que necessita de teorias que o explique, compreenda e interprete, ora como processo que envolve técnicas e ferramentas para seu gerenciamento, dificultando a maneira como o turismo é enxergado quanto ao seu objeto de estudo. Isto implica que muito dos estudos em turismo confundem-se ao apresentar um conhecimento prático e empírico da realidade apresentada com um conhecimento científico, levando-os a cometerem o erro de proclamar seus estudos como estudos científicos.
Kuhn (1962) fala sobre a busca do conhecimento e mostra que a ciência possui suas regras próprias e estas regras são compartilhadas por uma comunidade científica que possuem uma série de conhecimentos comuns, os quais pressupõem a existência de paradigmas, orientando os pressupostos da pesquisa.
Ocorre assim, um estímulo a pesquisas que traga novos conhecimentos e investiguem sobre os já conhecidos sobre sua eficiência, visando ao aprofundamento da área para que a mesma tenha uma base segura que a torne independente e a fundamente para o desenvolvimento de sua prática.
Este “assentamento de conhecimentos” é estritamente necessário para a produção de conhecimento científico de uma área. Sabemos que um conhecimento vai se consolidando por uma série de pesquisas que vão sendo acumuladas. No livro A Estrutura das Revoluções Científicas, Kuhn (1962, 2001, p 29) afirma que:
Ciência normal significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.
De acordo com Barreto e Santos:
A pesquisa científica é uma atividade que consiste em partir de realidades empíricas, informações sobre determinado assunto, reconstruir este universo empírico através de recursos metodológicos e confrontá-lo com o conhecimento teórico acumulado a respeito deste. A pesquisa científica produz teorias, que são os enunciados que resumem, orientam, conceitualizam, classificam, compreendem, explicam ou interpretam os fatos observados.
A integração multi e interdisciplinar no turismo tem significante relevância neste sentido já que o estudo dele é composto por diversas disciplinas que vem também de áreas distintas como das ciências humanas, ciências exatas e ciências biológicas. Esta integração tem significado uma forte característica nos estudos em turismo, que visam atingir um patamar evolutivo nas pesquisas científicas da área.
Barreto (2005) coloca que há pesquisadores nas áreas de ciências humanas e sociais desenvolvendo temas inovadores que tem como objeto de estudo o turismo, mas que o diálogo entre estas áreas não tem sido fácil. Indica ainda que além das dificuldades metodológicas na realização dos estudos interdisciplinares, há também dificuldade da própria natureza do turismo, por ser um fenômeno que apresenta distintos aspectos relacionados a uma complexa gama de áreas de interesse.
A produção acadêmica em turismo deveria construir uma teoria do turismo, mas as informações e pesquisas encontram-se desconectadas, impossibilitando o avanço significativo no debate. (PANOSSO NETO, 2005).
“A maioria das pesquisas nos periódicos de turismo implicitamente adota uma filosofia empírica-positivista, particularmente na economia, gerenciamento, marketing e psicologia; dessa forma, a construção da teoria é pobremente formulada”. (HALL apud PANOSSO NETTO, 2005, p.32)
Faz-se então necessária a análise detalhada dos autores brasileiros que escrevem a respeito do turismo, para que se identifique em qual estágio de teorização encontram-se suas obras e perceba-se como se dá a integração entre o turismo e outras áreas de conhecimento, que oferecem uma base científica para posteriores pesquisas no desenvolvimento de estudos em turismo.
A base de estudos do turismo já está formada. Portanto, espera-se agora que a gama de conhecimentos adquiridos, em diversas áreas de conhecimentos, resulte em uma teorização do turismo, profunda, multifacetada, mas concisa e objetiva.
REFERÊNCIAS
BARRETO, Margarita. CONFERÊNCIA apresentada no II Encontro Internacional de Pesquisadores da Rede Latino-americana de Cooperação Universitária "América Latina perante o desafio da integração". Universidade de Caxias do Sul - RS. 2005.
BARRETO, Margarita; SANTOS, Rafael José dos. Fazer Científico em Turismo no Brasil e seu Reflexo nas Publicações. Revista Turismo, Visão e Ação. v. 7, n. 2, p. 357-364. Camboriu, UNIVALI. 2005.
KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001 [1962].
PANOSSO NETTO, Alexandre. Filosofia do turismo: teoria e epistemologia. São Paulo: Aleph, 2005.
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