Competitividade das doze cidades-sede das da Copa do Mundo FIFA de 2014

 

A competitividade das doze cidades-sede da Copa do Mundo FIFA de 2014 foi tema recente de uma dissertação de Mestrado em Turismo e Meio Ambiente. Os resultados foram apresentados pela pesquisadora Luciana Lopes Pereira no VIII Seminário da ANPTUR - Associação Nacional Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo, de 02 a 04 de outubro de 2011 realizado em Balneário Camboriú – SC, sob o título: “Aplicação da Análise por Envoltória de Dados Estocástica (DEA) para Avaliar a Competitividade Turística das 12 Cidades-Sede da Copa do Mundo de 2014”.

 

O trabalho utilizou ferramentas estatísticas para analisar parâmetros turísticos, socioeconômicos e de sustentabilidade que permitiram comparar as cidades e determinar a capacidade de cada uma das doze capitais de enfrentar os desafios trazidos pela Copa. Por se tratar de um megaevento, considerado o acontecimento desportivo que atrai mais intensamente o interesse do público, havendo previsão, inclusive, de que o país será notícia para cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo, o planejamento brasileiro para a Copa de 2014 não pode ocorrer com uma base simplista de dados. Portanto, nesta pesquisa, houve o cuidado em investigar-se um conjunto substancial de informações composto por dados econômicos (despesas municipais em saúde, educação, cultura, comércio e serviço, urbanismo e gestão ambiental; ISSQN – Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza, contemplado como a receita municipal; PIB – Produto Interno Bruto). Dados turísticos (capacidade hoteleira e aeroportuária). Dados sócio-culturais: estatísticas de violência; número de leitos hospitalares e IDH-M – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. E dados referentes à taxas de acesso a serviços públicos, o qual representou o índice de sustentabilidade (taxa de acesso à rede de esgoto, água canalizada, coleta de lixo e eletricidade; percentual da população com tratamento de lixo e percentual de água que é perdida por dia nas diferentes redes de abastecimento de cada cidade). O principal objetivo da pesquisa foi realizar um diagnóstico detalhado das doze cidades-sede da Copa de 2014 para auxiliar na priorização de estratégias público-privadas que pudesse beneficiá-las, de forma a gerar desenvolvimento em diversos aspectos durante o megaevento, além de um legado pós-jogos: transmitir uma boa imagem do país, renovando-a no exterior, e também melhorar a estrutura urbana a ser usufruída pela população, gerar capacitação, empregos e maior qualidade de vida.

 

 Resultados:

Os resultados da pesquisa mostraram que dentre as doze cidades, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Natal foram as que se mostraram mais eficientes, apesar de apresentarem alguns pontos fracos que devem ser tratados com atenção especial por seus respectivos gestores.

São Paulo, apesar de possuir a maior rede hoteleira do país, apresenta os menores valores de número de leitos per capita e, portanto, terá problemas, caso não haja uma expansão em sua infra-estrutura turística.  Salvador e Rio de Janeiro foram as cidades que se mostraram mais carentes de medidas de combate à violência. Porto Alegre possui um índice muito elevado de despesas municipais e Natal precisa melhorar sua capacidade aeroportuária, além da necessidade visível em ampliar o acesso a serviços públicos, que colocam em risco a renda e a sustentabilidade municipal. Ainda assim, estas cinco capitais são as que melhor conseguem reverter seus investimentos municipais no desenvolvimento sócio-econômico municipal eficiente. Para efeito de análise é importante ressaltar que não cabe a este estudo indicar quais cidades estão mais avançados ou atrasados em seu desenvolvimento, nem tampouco afirmar que as cidades com 100% de eficiência DEA estão turisticamente preparadas de forma sustentável, mesmo porque foram mencionados problemas que estas cidades-sede enfrentam. Vale ressaltar ainda que não existe, em termos mundiais, uma cidade totalmente sustentável e considerando a realidade brasileira seria utopia fazer tal afirmação. Portanto, a afirmação que se pode fazer é que cinco cidades-sede apresentaram um melhor desempenho quando foi feita a análise comparativa de seus dados em conjunto com as demais cidades-sede. Em outras palavras, elas utilizaram os seus insumos de maneira mais adequada ao obter maiores resultados (produzir mais saídas) com menos entradas. Em função da otimização aplicada ao turismo e à sustentabilidade, foi possível apontar alguns aspectos relevantes sobre as demais cidades-sede.

Belo Horizonte é a capital que tem a maior proporção da população com acesso a serviços públicos, mas apresenta graves problemas com violência e hotelaria escassa. O mesmo nível de violência foi observado em Curitiba, mesmo sendo a segunda cidade que mais investe em serviços públicos, ficando atrás apenas de Brasília, neste quesito. Cuiabá deixa a desejar em vários aspectos: baixa capacidade aeroportuária, violência e falta de acesso a serviços públicos.

Recife tem o maior índice de violência e está entre os piores em sustentabilidade. Brasília possui baixas taxas de violência mas possui elevada sobrecarga de passageiros. Manaus e Fortaleza também apresentam carência aeroportuária e baixos índices de sustentabilidade. Há uma previsão de que a Copa irá gerar cerca R$ 183 bilhões para a economia brasileira, entre 2010 e 2019, por meio de impactos diretos - investimento em infra-estrutura, turismo, emprego, impostos, consumo - e indiretos, com a recirculação deste dinheiro no país. Para que isso aconteça, é necessário combater os diversos problemas estruturais do país, frutos de uma carência na educação e na economia. Desta forma, torna-se claro que algumas medidas precisam ser tomadas com urgência para atender à demanda da Copa com a eficiência internacional esperada; de modo geral, pôde-se observar que os principais problemas detectados foram: sobrecarga nos aeroportos, alto índice de violência e pouca consciência com relação à sustentabilidade (que é hoje uma preocupação global). Embora algumas capitais estejam isentas destas falhas, isto compromete o sucesso da COPA, divulgando a imagem negativa do país como um todo e colocando em risco todas as ações que vem sendo tomadas nas diversas regiões brasileiras. A metodologia utilizada nesta pesquisa permitiu que fossem determinados os fatores sócio-econômicos, turísticos e ambientais que mais afetam na competitividade das doze cidades estudadas.  Diferente de muitos trabalhos turísticos que se embasam em aspectos subjetivos, utilizou-se neste estudo dados de fontes oficiais, manipulados por um método quantitativo confiável e capaz de fornecer uma visão clara da otimização das eficiências relativas das cidades em análise. Desta forma, as questões assinaladas poderão ser aplicadas pelos gestores públicos como ferramenta de marketing e para a proposição de estratégias.Tal método pode, ainda, ser aprimorado por meio da coleta de mais dados, inclusive no que tange aos aspectos esportivos, bem como a atualização destes, no intuito de apontar novos aspectos relevantes à proposição de políticas públicas e metas. Conseqüentemente, poderá haver uma condução do país ao seu planejamento concreto, estando realmente preparado para recepcionar este megaevento e se beneficiar das diversas oportunidades de desenvolvimento (econômicos, turísticos, sócio-culturais e ambientais) que apenas um megaevento como a Copa do Mundo pode proporcionar.